Historinha curta2 min
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O cheiro de pão quente entrou com João pela porta rangente. A cozinha era pequena: fogão de ferro, um barril de farinha e o pai sentado, preocupado. Lá fora, a chuva tamborilava no telhado.
— Não sobra nada — disse a madrasta, a voz curta. — Amanhã vamos mais fundo na mata.
João apertou a mão da irmã. Maria, com tranças molhadas, tinha no bolso um bolsinho de pedrinhas brancas que juntara no rio. Ela sorriu e, na manhã fria, foi deixando cair uma a uma pelo caminho. A noite cobriu a trilha e as pedrinhas, reluzindo, formaram um caminho prateado de volta para casa.
Na segunda vez, a madrasta levou-os mais longe e trancou o bolso de Maria. João e Maria espalharam migalhas — pedacinhos de pão — para marcar o caminho, mas os passarinhos bicaram tudo. Perderam-se.
Ao findar do cansaço, uma clareira apareceu com uma casa feita de biscoito: telhado de glacê, janelas de caramelo. O cheiro os puxou. Uma senhora de avental florido abriu a porta e sorriu.
— Entrem, queridos. Tenho biscoitos quentinhos.
Entraram, e o desejo de um pedaço foi maior que o medo. Logo João foi empurrado para uma gaiola e Maria percebeu que a senhora não era só doce: havia algo frio no olhar.
— Quando o menino estiver gordo — sussurrou ela — você ficará limpando a casa.
Maria ficou quieta, observando. À noite, quando a velha abriu o forno para mostrar como esquentar, Maria segurou uma colher de pau com força. No momento certo, empurrou, a velha perdeu o equilíbrio e caiu para dentro do forno. O barulho foi curto; o silêncio, grande.
João saiu da gaiola. Eles vasculharam a casa e encontraram moedas e pequenos tesouros escondidos entre os doces. Encheram os bolsos e voltaram pelo bosque com passos firmes.
O pai, ao ver o cheiro de biscoito, correu. Abraçou-os como quem retira o medo do corpo. A madrasta já não estava. A casa, enfim, cheirou a pão e a calma. João e Maria se entreolharam e sorriram — sabiam que, juntos, sempre encontrariam o caminho de volta.
Historinha longa7 min
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João abriu a porta de madeira rangente e sentiu o cheiro quente do pão saindo do forno velho. A cozinha era pequena: um fogão de ferro, um barril de farinha, e o pai sentado com a testa franzida. Lá fora, a chuva miúda batia no telhado de zinco como uma canção que não aquecia a casa.
— Não temos nada sobrando — murmurou a madrasta, a voz seca como palha. — Precisamos ir mais fundo na mata amanhã. Não dá para alimentar quatro bocas.
João apertou a mão da irmã sem olhar. Maria, com as tranças ainda molhadas da chuva, respirou fundo e passou os dedos pelo bolso do vestido. Havia algo duro lá: um bolsinho cheio de pedrinhas brancas que tinha juntado perto do rio. Um sorriso pequeno ocupou o rosto dela.
Na manhã seguinte, quando a neblina ainda cobria os campos, o pai e a madrasta levaram as crianças para a trilha. O chão cheirava a terra úmida, folhas estalavam como papel sob os pés. João tropeçava e puxava a manga da irmã.
— Fiquem juntos — disse ele baixinho, enquanto Maria pegava uma pedrinha e a deixava cair atrás deles no mato. Uma, duas, três. A lua tinha brilhado até a madrugada; as pedrinhas iam reluzindo um salpicado prateado no chão escuro.
Quando a família virou de costas, as pedrinhas formaram um caminho brilhante que levou os dois até a casa, onde o pai dormia encurvado. O pai os abraçou tão forte que o colete rangeu.
— Ensinei vocês a voltar — disse João, com o peito batendo como tambor.
Mas a fome havia apertado a casa outra vez. Na segunda vez, a madrasta trancou o bolso da menina e levou os dois ainda mais longe. Desta vez, a luz era pálida e o bosque tinha um cheiro diferente, de musgo e casca molhada. Antes que percebessem, a madrasta sumira entre as árvores. Desesperados, João e Maria só tinham migalhas de pão que o pai lhes dera escondido. João espalhou os pedaços pelo chão como se plantasse pequenas sementes de pão.
— Vamos contar as migalhas — sussurrou Maria.
— Eu conto — respondeu João, e os dois foram marcando o caminho com cada pedacinho. Mas os passarinhos do bosque, espertos e barulhentos, começaram a saltitar, bicando as migalhas. Em pouco tempo, o rastro sumiu. O vento levou os últimos vultos de cheiro. Quando a lua se escondeu, não havia mais caminho de volta.
Caminharam até encontrarem uma clareira. No silêncio, algo brilhou entre as árvores: uma casa inteira feita de biscoito, o telhado coberto de glacê, janelas de caramelo que faiscavam ao sol. O cheiro que veio até eles era doce e quente, como bolo recém-saído do forno — tão atraente que os pés foram sozinhos até a porta.
— Olha — disse Maria, a mão já alcançando um pedacinho do parapeito de chocolate. — É uma casa de doces!
Uma senhora apareceu na porta, com um avental florido e os olhos tão pequenos que pareciam duas sementes. A voz dela foi como um cobertor, macia.
— Entrem, queridos. Estou sozinha, não tenho nada a fazer além de assar biscoitos.
O lado cuidadoso de João quis recuar. Maria mordeu um cubinho de gengibre e riu.
— Só um pedacinho — disse ela, engolindo o doce.
Mas logo perceberam que algo estava errado. A senhora os trouxe uma mesa cheia de doces e, no canto, uma gaiola onde João foi empurrado. Os pés do menino bateram no ar, sem chão. A mulher olhou para Maria com um brilho nos olhos que não era de ternura.
— Quando o João estiver gordinho — sussurrou a velha — eu o comerei. E você ficará limpando a casa.
João ficou muito quieto. Maria percebeu que o avental escondia bolsos cheios de ossos de galinha e pedaços de pau. O coração dela não fez barulho; mas as mãos tremiam. Eles trocaram um olhar. Essa foi a hora em que decidiram que juntos teriam de encontrar uma saída.
Na noite seguinte, a velha vinha checar o garoto e empurrava a gaiola para que João ficasse bem perto da fornalha. Ela pedia para Maria espiar o forno, como se fosse a tarefa mais simples do mundo.
— Aqueça o pão, minha menina — dizia a bruxa com a voz doce.
Maria fez o que ela mandou, fingindo não entender, andando devagar como quem estuda cada movimento. Cada vez que a bruxa se inclinava, Maria pegava uma colher de pau e a segurava com força. Quando a velha abriu a porta do forno para mostrar como colocar as mãos, Maria pegou a colher como quem pega uma alavanca, deu um empurrão com as duas mãos e a velha, desequilibrada pela surpresa, caiu para dentro. A porta fechou com um baque abafado e o calor da fornalha soprou pelo alçapão. O jeito da bruxa desaparecer não foi bonito; foi um susto que se transformou em silêncio.
João saiu da gaiola com cuidado. O peito dele subia e descia, como se tivesse corrido uma corrida. Maria estendeu a mão e ele a agarrou. Eles riram — um riso curvo, cheio de alívio — e começaram a procurar pela casa. As paredes tinham botões de açúcar que soltavam faíscas quando tocados. De caixas escondidas saíam moedas que faiscavam como se tivessem guardado a luz do sol.
— Enche os bolsos — disse João, e os dois encheram as roupas com pequenos tesouros: pérolas falsas que reluziam como gotas de chuva, pequenos objetos brilhantes que pesavam mais do que pareciam.
Na volta, o bosque parecia o mesmo, mas os passos deles tinham outra firmeza. Ao aparecerem na clareira, o pai os reconheceu primeiro pelo cheiro: cheiro de biscoito e de terra molhada. Ele correu, os abraçou com um soluço que sacudia os ombros, como se quisesse enfiar o medo para fora.
— Voltem para casa — disse ele, a voz quebrando em sorriso.
Quando viram a madrasta, ela não estava mais na casa; fora embora. O pai pôs as moedas no manto e, pela primeira vez em muito tempo, as coisas na casa pareceram suficientes. As noites voltaram a ter um brilho tranquilo. João e Maria contavam, de vez em quando, como tinham seguido pedrinhas e provado a doçura demais que aprendeu a não confiar só na boca. E, quando o vento batia na janela e o cheiro do pão vinha do forno, eles puxavam a manga um do outro e sorriam — lembrando que, juntos, sempre encontrariam o caminho de volta.