Historinha curta2 min
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Alice abriu a janela e o vento trouxe cheiro de grama molhada e bolo de limão. Um coelho branco, de colete, passava apressado olhando o relógio: "Ai, ai, vou chegar atrasado!" Alice correu atrás, pulando pedras imaginárias. O coelho sumiu numa toca. Ela bateu numa raiz e caiu, rodando entre livros, xícaras e folhas que faziam um tapete farfalhante.
Pousou numa sala cheia de portas. Na mesa, uma garrafa com um bilhete: BEBA-ME, e um bolo marcado MINHA-TAMANHO. Um pedacinho do bolo fez Alice crescer demais; uma gota da garrafa fez ela encolher. Seus sapatos rangiam, o teto parecia perto demais. Respirou fundo, tentou lembrar de casa, e achou um jeito: uma pitadinha de cada coisa, até caber e sair por baixo da mesa.
No lago das lágrimas encontrou um rato encharcado e um grupo que corria sem parar numa "corrida do caucus". Riram e se secaram com folhas. Depois, num claro de cogumelos, um Caterpillar fez fumaça do cachimbo e apontou: "Uma ponta sobe, a outra desce." Alice provou, errou, riu e aprendeu que podia brincar com seu tamanho sem perder a cabeça.
Numa mesa comprida, o Chapeleiro Maluco e a Lebre de Março derrubavam chá e canções tortas. Eles ofereceram chapéus e receitas, e Alice experimentou, acertando aos poucos, ajeitando o chapéu e pedindo calma quando tudo balançava.
No jogo de croquet, a Rainha de Copas berrava de vermelho: "Cortem-lhe a cabeça!" — um costume estridente que fazia as cartas correrem. Alice, segurando um flamingo enrolado no braço, errou, tentou de novo e disse baixinho: "E se combinarmos as regras?" O Gato de Cheshire, aparecendo com um sorriso, falou: "Você foi corajosa." Seu sorriso acalmou a sala.
No tribunal as histórias se embolavam. Alice contou simplesmente o que aconteceu desde o coelho. As cartas se agitaram, o chão a puxou e, num piscar, ela estava de volta ao gramado de casa. Encontrou no bolso um bilhetinho BEBA-ME. Sorriu, guardou-o e, antes de dormir, lembrou do gosto do chá, do toque das penas e da forma de rir dos próprios erros. Bocejou, fechou a janela e adormeceu, tranquila.
Historinha longa7 min
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Alice abriu a janela e o vento trouxe um cheiro de grama molhada e bolo de limão. Ela corria atrás de um coelho branco que olhava o relógio com pressa e murmurava: "Ai, ai, vou chegar atrasado!" O coelho tinha colete e tinha nos olhos uma correria que fazia os passos de Alice ficarem leves como quem pula pedras.
De repente, o coelho entrou por uma toca. Alice bateu a cabeça numa raiz e, sem pensar muito, deslizou para dentro. A queda foi longa e cheia de livros, xícaras, e um barulho de folhas que se abria como um tapete. Ela pousou numa sala forrada de portas pequenas e grandes. No centro, em cima de uma mesa de madeira brilhante, havia uma garrafa com um bilhete: BEBA-ME. Ao lado, um bolo com uma etiqueta MINHA-TAMANHO.
"Hum..." murmurou Alice. Ela provou um pedacinho do bolo. Em minutos, sentiu os sapatos apertarem: crescia. O teto aproximou-se. Seus dedos tocaram a lâmpada; o coração bateu rápido. Alice puxou as mangas e tentou lembrar de casa — como caberia ela naquela sala agora?
Desesperada, ela derrubou uma gota da garrafa. O líquido cheirava a limões e a chuva. Bebeu, encolheu até caber por baixo da mesa. Quando saiu, achou que tinha vencido o problema, mas a porta do jardim parecia muito longe.
No lago das lágrimas, Alice encontrou outras pessoas pequenas e molhadas: um rato com os olhos tristes, um pato que fazia bolhinhas, e um grupo que corria sem rumo quando alguém sugeriu uma "corrida do caucus". O som dos pés e das risadas molhadas misturava-se ao cheiro de lama e areia. Todos correram até ficar cansados, mas ninguém ganhou — só se secaram numa pilha de folhas e historias curtas.
"Quem é você?" perguntou um rato, novamente, e Alice respondeu dizendo o que lembrava: que era só uma menina que seguira um coelho apressado. Não havia resposta pronta; as palavras pareciam brincos jogados ao chão.
Mais adiante, numa clareira dominada por cogumelos gigantes, apareceu o Caranguejo Azul — não, o lagarto errado; era o Caterpillar, sentado num canto, enchendo o ar com a fumaça de seu cachimbo e falando devagar.
"Uma mordida aqui, outra ali," disse ele, apontando para as duas pontas do cogumelo. "Uma muda acima, a outra abaixo."
Alice provou uma lasquinha do lado que fazia crescer e outra do lado que fazia encolher, experimentando até aprender a brincar com o seu próprio tamanho como se fosse uma roupa de boneca. Ainda assim, uma vez grandona demais, outra vez pequenina demais, ela trombou em folhas e derrubou um sino. Erro após erro, riu e suspirou, até descobrir o equilíbrio: um pedacinho certo de cada lado.
No jardim seguinte, um chá partido ocupava uma mesa comprida: o Chapeleiro Maluco, a Lebre de Março e um Dorminhoco entre xícaras tortas. Eles cantavam uma canção fora de compasso e mexiam as colheres com gestos que mal acabavam. O som das xícaras era metálico, como campainhas desafinadas.
"Venha sentar," chamou o Chapeleiro, com um sorriso torto. Alice sentou e tentou conversar. "Por que vocês bebem chá à tarde e não à noite?"
"Porque a hora do chá é teimosa," respondeu a Lebre, e bateram palmas como se fosse a coisa mais lógica do mundo.
Ela tentou explicar seu problema de tamanho. Eles ofereceram soluções absurdas: casacos de várias camadas, um sapato mágico, até uma receita de bolo que cantava. Alice provou de tudo, e sempre que errava — crescia na hora errada, derrubava uma xícara, derrubava risadas — aprendia a ajeitar o chapéu, a pedir calma, a respirar fundo e rimar sua própria canção para não se perder.
Quando entrou no campo onde se jogava croquet, a Rainha de Copas apareceu vestida de vermelho brilhante, com uma voz que cortava como vento de tesoura. "Cortem-lhe a cabeça!" ela berrava sempre que alguém errava o ponto — mas a frase parecia mais um costume do que um perigo verdadeiro; as cartas-soldados corriam ao redor, derrubando cartas que tilintavam no chão como papel do mar.
O jogo usava flamingos como tacos e ouriços como bolas. Alice segurou um flamingo de pena rosa que se enroscava no pulso; o bico do animal pingava orvalho. Ela jogou, errou, riu de si mesma e tentou de novo. Entre golpes atrapalhados e corridas derrapadas, percebeu que a Rainha gostava de mandar porque tinha medo de ser ignorada. Alice falou baixo, com voz firme: "Talvez possamos combinar as regras." O rosto da Rainha desconfiou, as cartas sussurraram, e um silêncio pesado caiu — até que a Rainha, por um instante, olhou para seus próprios sapatos sujos e pareceu se lembrar de outra brincadeira.
No tribunal, a confusão aumentou: as testemunhas contavam histórias que se enredavam, e Alice não conseguia entender as regras. Um barulho de papel e de carimbos acompanhou as vozes. Quando chegou sua vez, ela não tentou provar algo com discursos grandes; apenas contou, passo a passo, o que havia acontecido desde que seguira o coelho. Falou do cogumelo que dava e tirava altura, do chá que afinava o relógio, e do flamengo que não queria ser taco.
As cartas cochicharam. A Rainha resmungou. O Gato de Cheshire apareceu no alto de uma árvore, sorrindo com dentes como luas curtas. "Você é corajosa por contar a verdade," disse ele, sumindo uma peça de cada vez até restar só o sorriso. Aquela calma espalhou-se como luz de lamparina.
Então algo mudou: o tribunal se embaralhou, as cartas voaram, o chão pareceu puxar Alice para cima como se fosse uma maré. Ela piscou e estava de volta ao gramado de casa, o vestido um pouco esfolado, a cabeça cheia de imagens que brilhavam como retalhos. Ao longe, sua irmã chamava: "Alice! Já vai escurecer!" O som era seguro, comum, e Alice sentiu o coração aquecer.
Ela contou baixinho, para si mesma, o sabor do chá, o toque das penas, o som do relógio do coelho. Colocou a mão no bolso e encontrou, dobrado, um bilhetinho com letras miúdas: BEBA-ME. Sorriu e guardou. Nem tudo era para levar, mas a coragem de experimentar e as risadas que fez — essas, parecia, cabiam bem no bolso do coração.
Antes de fechar os olhos para dormir de verdade, Alice olhou para a janela. A noite trazia o cheiro de bolo de limão misturado ao de terra. Ela sabia que, mesmo sendo um sonho, as estradas que descobrira serviriam para quando o medo apertasse: respirar, tentar outra vez, pedir ajuda e, principalmente, rir das próprias trapalhadas. Com um bocejo largo, deixou o dia partir e adormeceu, segura.